Mai 26, 2026

Entre Earned e Endorsed: como navegar a nova relação entre media e influenciadores nas Relações Públicas

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“A fronteira entre relações com os media e engagement com influenciadores tem vindo a desaparecer de forma gradual. Em 2026, as estratégias de comunicação mais eficazes deixaram de tratar estas áreas como universos separados. Passaram a integrá-las em torno do princípio que sempre sustentou as Relações Públicas: confiança conquistada através de fontes externas credíveis.”

As Relações Públicas sempre dependeram de validação externa. Durante décadas, essa validação era construída sobretudo através dos media tradicionais: jornalistas, órgãos de comunicação social e líderes de opinião institucionais. Eram estes os principais mediadores da credibilidade pública. Hoje, o ecossistema tornou-se muito mais fragmentado — e muito mais distribuído.

A influência pode surgir de um jornalista especializado, mas também de um criador de conteúdo altamente respeitado numa comunidade de nicho, de um especialista com forte presença no LinkedIn, de um analista cuja newsletter influencia decisões de mercado ou de um microinfluenciador com uma audiência pequena, mas profundamente envolvida.

A lógica mantém-se: as pessoas continuam a confiar mais em terceiros do que nas mensagens produzidas diretamente pelas marcas. O que mudou foi a diversidade desses terceiros. A chamada creator economy atingiu uma dimensão impossível de ignorar. Mas escala, por si só, nunca foi sinónimo de influência real — e muito menos de credibilidade.Porque as audiências continuam extremamente sensíveis à autenticidade.

Quando uma recomendação parece artificial, excessivamente comercial ou desalinhada com a identidade de quem comunica, a confiança deteriora-se. E num ambiente saturado de conteúdo, recuperar essa confiança tornou-se cada vez mais difícil.

O reforço das regras de transparência, o crescimento do conteúdo automatizado e a crescente fadiga das audiências face à publicidade tradicional alteraram profundamente a forma como as colaborações são avaliadas. Hoje, as pessoas reconhecem facilmente quando uma parceria existe apenas por motivos comerciais. E isso tem consequências reputacionais tanto para as marcas como para os próprios criadores.

Durante demasiado tempo, muitas campanhas com influenciadores foram geridas numa lógica puramente transacional: briefing, aprovação, publicação e fim da relação. O influenciador era tratado como mais um canal pago. Mas uma abordagem com base em Relações Públicas funciona de forma diferente. Parte do princípio de que os influenciadores são, antes de mais, mensageiros com capital de confiança próprio. E isso implica respeitar a sua voz, a sua relação com a comunidade e a autenticidade do seu posicionamento. A diferença percebe-se imediatamente no conteúdo produzido.

Tal como acontece no earned media, também aqui a eficácia depende da coerência entre mensagem, contexto e credibilidade da fonte. As campanhas que geram impacto duradouro não são necessariamente as mais visíveis. São as que conseguem parecer genuínas porque, de facto, são genuínas.

O valor estratégico das comunidades de nicho

Durante anos, a lógica dominante privilegiou dimensão: mais seguidores, mais alcance, mais exposição. Mas os indicadores mais relevantes para as Relações Públicas contam hoje uma história diferente.

Micro e nano influenciadores tendem a gerar níveis superiores de engagement, relações de maior proximidade com as suas comunidades e níveis de confiança significativamente mais elevados do que muitos criadores de grande escala. E essa diferença tornou-se particularmente relevante em setores especializados e em contextos B2B.Nestas áreas, credibilidade técnica, conhecimento aprofundado e reconhecimento dentro de uma comunidade específica têm frequentemente mais impacto do que alcance massificado.

Por isso, os novos influenciadores estratégicos já não são apenas criadores de lifestyle ou figuras de entretenimento. São também investigadores, analistas, especialistas setoriais, consultores e profissionais reconhecidos pelo seu conhecimento. A influência passou a estar muito mais ligada à relevância contextual do que à dimensão da audiência. E as organizações que conseguem identificar as vozes certas — em vez de apenas as maiores — tendem a construir relações muito mais eficazes e sustentáveis.

Uma das mudanças mais importantes nas estratégias de comunicação contemporâneas é a crescente integração entre earned media e engagement com influenciadores. As organizações mais eficazes já não encaram estas dimensões como alternativas. Trabalham-nas de forma complementar.

As relações com os media continuam a desempenhar um papel central na construção de reputação institucional, autoridade e validação externa. Continuam a ser fundamentais para consolidar credibilidade pública e reforçar presença em ecossistemas mediados por Inteligência Artificial.

Por outro lado, os influenciadores oferecem algo que os formatos institucionais dificilmente conseguem replicar: proximidade cultural, linguagem comunitária e capacidade de gerar atenção genuína em ambientes saturados de publicidade.

A vantagem competitiva surge precisamente da capacidade de articular estas duas dimensões de forma estratégica. Saber quando construir autoridade institucional. Saber quando ativar proximidade e comunidade. Saber quando uma mensagem precisa de legitimidade editorial e quando precisa de identificação humana. É essa capacidade de integração que define as estratégias de Relações Públicas mais eficazes. Porque, no final, tanto no earned como no endorsed, o princípio continua exatamente o mesmo: confiança não se impõe. Conquista-se.